Artigos

“Considerado por Afonso Arinos de Melo Franco, pela rica complexidade de sua figura como uma das mais importantes da sua geração e como ‘melhor cérebro’ daquela época por Roberto Campos, o jurista, o jornalista, deputado federal, ministro das Relações Exteriores e ministro da Fazenda, Francisco Clementino de San Tiago Dantas faria 90 anos hoje, 30 de outubro, se não tivesse nos deixado, em setembro de 1964.” (...)

Attachments:
Download this file (O_legado_de_San_Tiago_Dantas.pdf)O_legado_de_San_Tiago_Dantas.pdf[ ]531 kB
Arnaldo Niskier

Foi realizado um Seminário intitulado "Atualidade de San Thiago Dantas", na Associação Comercial do Rio de Janeiro, com o apoio da Secretaria de Estado de Cultura do Rio de Janeiro e do Instituto San Thiago Dantas, a propósito dos 40 anos da morte daquele grande homem que nos deixou prematuramente aos 53 anos de idade.

Raramente - foi opinião generalizada dos quase 200 presentes - viu-se tamanha demonstração da erudição e de amor a uma personalidade forte da vida brasileira. Falaram Marcílio Marques Moreira, Luís Dulci, Celso Amorim, Celso Láfer, Mário Gibson Barbosa (que chegou a verter lágrimas com as suas lembranças do agradável convívio), Afonso Arinos e Adacir Reis, este presidente do Instituto San Thiago Dantas. Foi uma extraordinária emulação entre os oradores, como se houvesse mesmo uma necessidade dessa catarse cultural. 

Foram lembradas passagens de San Thiago Dantas na vida acadêmica, grande professor que foi da Faculdade de Direito, também a ação política, em que ele chegou ao cargo de ministro das Relações Exteriores. Com pensamentos objetivos sobre o emprego da democracia interna e os conceitos de liberdade, no mundo exterior. 

Os caminhos de San Thiago foram sempre transparentes e bem delineados. Sua frase lapidar resumia-se no seguinte: "Deve-se tirar as coisas da obscuridade e levar à luz, com o emprego da inteligência." Chegou a ser considerado talvez o maior humanista brasileiro do século XX. Saudado pelo falecido acadêmico Celso Furtado, que afirmou: "Com ele será possível alargar o espaço cultural em que se exerce a ação criadora do homem, para que possamos usar o dom da liberdade para a tarefa de redefinição de valores e identificação dos fins." Merecer esse comentário do maior dos nossos economistas é uma honra única.

Vale lembrar o incomparável texto sobre D.Quixote: um apólogo da alma ocidental., reeditado pela Universidade de Brasília (original de 1947), em que San Tiago recorda o papel da obra de arte, da cultura, para tornar o mundo e o próprio homem mais inteligíveis. Tratou o Quixote "como símbolo, homem heróico, cujas ações frutificam pelo exemplo e pela força espiritual que irradiam".

Apresentou uma densa floresta de reflexões, discutindo o sentido e o valor da aventura do extraordinário fidalgo, com os seus sonhos impossíveis. Era o mais perfeito dos cavaleiros andantes, vivendo a dificuldade de separar adequadamente os limites da virtude e da loucura. Daí as muitas cenas em que prevalece o ridículo, apresentando o herói louco com o seu fiel amor dilacerado.

D. Quixote, com o seu fiel escudeiro Sancho Pança, viveu o heroísmo isento de todo êxito, muito mais martírio, como era comum nos romances de cavalaria da época. É de San Tiago a inferência: "O heroísmo do cavaleiro não está nos seus feitos, está nas suas disposições de alma." E assim podem ser explicadas as suas visíveis qualidades: castidade, idealismo, desinteresse, sacrifício, bondade compassiva, mas isenta de emoção.

Tinha suas alucinações ou sonhos, como a clássica luta contra os moinhos de vento, mas sempre foi guiado pela integridade da sua incorruptível consciência. E assim ele se encontrou com o amor de Dulcinéia, símbolo e síntese do sentimento cavalheiresco. Viveu intensamente esse sonho ou o que o autor chama de enamoramiento. D. Quixote morreu com uma rigorosa fidelidade ao que se chamava de amor-paixão, que San Tiago Dantas soube interpretar no Brasil como ninguém. Não terá sido ele também, pela sua identificação, um D.Quixote moderno? 
 
Jornal do Comércio (Rio de Janeiro) 20/12/2004

San Tiago Dantas: um projeto econômico para o Brasil
Autores: Adacir Reis e Carla Patrícia da Silva Reis

CÁSSIO SCHUBSKY

San Tiago Dantas consolidou política externa independente, contrária ao alinhamento do Brasil ao jugo norte-americano e sem submissão à ex-URSS

Em que pese o fato de muita gente pregar o desuso das expressões "direita" e "esquerda", sou dos que ainda creem na utilidade desses conceitos para definir o espectro político, posturas ideológicas e práticas de atores sociais em geral e de governantes em particular.
Em resumo muito sumário, ser de esquerda hoje é acreditar que existe, a olhos vistos, um enorme fosso social brasileiro e que impera -sim, senhor!- abjeta concentração da renda, a ser combatida.

Ser de direita é agir para que tudo fique como está, para ver como é que fica... mantendo-se a exploração venal do trabalho, mesmo com o verniz de medidas sociais de caráter paliativo.
É bem verdade que pregação e prática não guardam, muitas vezes, coerência entre si, ou seja, quando o que se proclama não é o que se faz. Exemplo: o sujeito bate no peito para se jactar "de esquerda", mas se aferra a privilégios, mamando, egoisticamente, nas tetas opulentas do Estado.
Escrevo tudo isso para lembrar que neste ano celebra-se o centenário de nascimento de um dos grandes personagens da história brasileira do século 20, Francisco Clementino de San Tiago Dantas.
Ativo integralista na juventude, San Tiago morreu cedo, com apenas 52 anos de idade, dizendo-se de esquerda. E forjou distinção entre o que ele chamava de "esquerda positiva" (que transige e negocia) e de "esquerda negativa" (movida pelo confronto desbragado).
Em clássico prefácio ao não menos clássico livro "Raízes do Brasil", de Sérgio Buarque de Holanda, o crítico literário Antonio Candido assinala essa mudança de rumo ideológico de alguns integralistas, asseverando que San Tiago "era um dos mais brilhantes entre eles".
Carioca, nascido em 30 de outubro de 1911, San Tiago Dantas tornou-se "catedrático menino", aos 26 anos professor da Faculdade Nacional de Direito, no Rio de Janeiro.
Escritor bissexto, jornalista, advogado, deputado federal pelo Partido Trabalhista Brasileiro (o PTB de Vargas e Jango), deixou poucos registros escritos de sua luminosa produção intelectual, em que se destacam pareceres jurídicos, discursos parlamentares, artigos compilados, aulas taquigrafadas por alunos e uma conferência notável intitulada "Dom Quixote, um Apólogo da Alma Ocidental".
No governo João Goulart, comandou as pastas da Fazenda e das Relações Exteriores, atuando ao lado de outros luminares da cultura, como Celso Furtado e Darcy Ribeiro. E manteve-se fiel a Jango, quando ambos definhavam: o governo e San Tiago, acometido de câncer fulminante, que o aniquilou em 6 de setembro de 1964.
Na condução do Itamaraty, consolidou a chamada política externa independente, contrária ao alinhamento do Brasil ao jugo norte-americano e sem submissão à extinta União Soviética.
Sua filiação à esquerda positiva custou-lhe caro -a Câmara recusou a indicação de seu nome para o cargo de primeiro-ministro no breve período parlamentarista.
Em discurso proferido quando foi agraciado com o prêmio "Homem de Visão do Ano", em 1963, semanas antes do golpe civil-militar que apeou Jango do poder, San Tiago cunhou uma farpa contra seus próprios detratores que ainda hoje dá o que pensar: a "elite esclarecida" está aquém do nosso povo.

CÁSSIO SCHUBSKY (1965-2011), foi editor e historiador, organizador do livro "Clóvis Beviláqua -Um Senhor Brasileiro" (Editora Lettera.doc). Este era seu último artigo inédito.

Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do jornal. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros e mundiais e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo. Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo. 
 
Fonte: Folha de São Paulo (10.03.2011)

Apresentação da Biografia de San Tiago Dantas - Volume I
Por Pedro Dutra

APRESENTAÇÃO

O homem, que muitos dizem ser o mais inteligente do Brasil, tem pressa. Assim uma reportagem na revista O Cruzeiro, a maior do País, se referia a San Tiago Dantas em 1960. Mas quem foi, ou melhor, quem é San Tiago Dantas?

Brilhante e precoce, sem dúvida. Líder estudantil aos dezessete anos, aos vinte editor de jornal e teórico fascista, um ano depois professor de Direito, a seguir prócer integralista e crítico do nazismo; catedrático aos vinte e cinco, fundador de duas faculdades e titular de três cátedras antes dos trinta anos e ainda diretor da Faculdade de Filosofia, no Rio de Janeiro. Um ano depois, em 1942, repudia publicamente o Integralismo, defende a declaração de guerra ao Eixo, propõe a união nacional das forças políticas, reunindo os comunistas in- clusive, para afirmação de um regime democrático, e em 1945 elabora parecer firmado por seus colegas professores que nega fundamento jurídico à proposta continuísta do ditador Getúlio Vargas. E, explicitamente, defende substituir a propriedade privada pelo trabalho como núcleo de uma ampla reforma social.